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Salve, domingo é dia de almoçar no Fasano!

Aqui, o almoço dominical é patrimônio cultural de São Paulo


COMO TODA CATEDRAL QUE SE PREZA, o Fasano passou a abrir aos domingos para almoço. A isso agradecemos de joelhos a dádiva alcançada a San Gero e a todo seu panteão sagrado de colaboradores. Tem algo de místico ao entrar de dia no hotel Fasano. A penumbra e o silêncio do lobby deixam lá fora o caos da existência quase como uma metáfora de um mundo ideal – canto gregoriano opcional na cabeça de cada um.



Me dirijo ao restaurante, que – pasme – é ainda mais bonito a luz do dia – cantos gregorianos novamente.


Dentre o time de maîtres absolutamente incríveis, fui escolhido – me senti assim – pelo Silva, velho conhecido do Gero e que agora comanda a missa do almoço na nave principal.


A equipe toda do Fasano tem uma característica muito especial: embora representem o que há de mais refinado em termos de gastronomia clássica italiana em um dos estabelecimentos mais elegantes – senão o mais! – de uma das maiores e mais importantes cidades do mundo, ela consegue quebrar toda a pompa e circunstância inerente a um lugar como esse com uma naturalidade e um calor humano que fazem com que
a gente imediatamente se sinta parte integrante deste universo diáfano.



Algo como a rainha da Inglaterra soltando o cabelo durante uma daquelas audiências onde ela dá aquele come nos seus ministros que a gente vê no The Crown. Mas vamos aos trabalhos. Sou conduzido pra minha mesa onde já me espera para minha infelicidade, meu sócio. Digo infelicidade porque uma experiência como esta deveria ter sido dividida com minha esposa. Um ser muito mais perfumado e que orna com este ambiente muito mais do que o... Robert. Mas ele é o que tem pra hoje, então sigamos!



Risoto de funghi porcini e timo porque aqui ninguém está de brincadeira... Servido na panelinha de cobre ele já anuncia sua chegada antes de vir à mesa

O couvert composto do maravilhoso e compridérrimo grissini, um sortimento de pãezinhos carregando o perfume discreto e reconfortante de quem foi assado há pouco. Para acompanhar, manteiga translúcida salgada na medida e a compota de tomate que brinca entre a suave acidez de um molho de tomate com a textura e o dulçor de um doce caseiro. O Fasano brilha em cada detalhe, no caso os guardanapos de linho – enormes – que brilham alvos ao sol como uma veste cardinalícia



Para brincar com este couvert perfeitamente minimalista pedi o excelente dry martini que vem com sua dose extra em um berço de gelo de modo que o conteúdo da taça nunca esquente. Desnecessário dizer que não paramos no primeiro. Para os antipasti, escolhemos o carpaccio de atum ao azeite e limão e o steak tartar preparado pelo próprio Silva à mesa, comme il faut. Atum carregado de frescor fazia um ótimo contraponto ao azeite e ao limão servido na medida alternando elementos de terra e mar.


A nossa sobremesa obrigatória no Fasano: Tiramissu! Com mascarpone batido na hora, é o melhor do Brasil fácil


O tartar é um show a parte. Na versão Fasano é composto de carne picada a ponta de faca na temperatura certa, azeite italiano, alcaparra, excelente cognac francês, uma gema de ovo quase cor de laranja de tão linda e gotinhas de tabasco pra dar aquele zing. Suculência e equilíbrio perfeito em um prato que desafia a não errar.


Apesar da dificuldade de preparo e do espaço que os carrinhos ocupam, restaurantes a exemplo do Fasano deveriam investir mais na finalização de alguns prato a mesa. É pura magia. O agradável prosecco da casa, de coloração clara, boa perlage, final límpido e seco compôs com classe tanto com o peixe quanto com a carne.


Pulamos a massa e fomos para o clássico e imbatível risoto de funghi porcini e timo porque aqui ninguém está de brincadeira... Servido na panelinha de cobre ele já anuncia sua chegada antes de vir a mesa. O tomilho apenas discreto dava um pouquinho de brilho ao prato de sabor e perfume intenso. O vinho sugerido sem medo de jogar pra torcida, foi o Chianti D.O.C.G. Gran Selezione – Quercetto di Castellina, que nos acompanhou durante todo almoço.


Durante o almoço, o imponente teto retrátil, bem no meio do salão do restaurante, fica permanente aberto. Quando olhamos para o alto, parece vermos uma piscina virada para o azul do céu


Os pratos de carne foram fegato alla veneziana com polenta e o maialino com fagiolli alla fiorentina.Mas poderia ser a paleta de cordeiro com lentilhas, uma dos pratos feitos especialmente aos domigos, para duas pessoas (veja quadro). Sobre o fegato, o fígado é cortado em fatias fininhas e servido em um molho untuoso de cebolas acompanhado de polenta cremosa. É um prato vigoroso e de sabores marcantes. Quem gosta de fígado tem diversão garantida aí.


O maialino, nome italiano pro leitãozinho, servido com feijões estava macio muito bem assado e aromático. Um prato rico em sabores, mas também muito leve. Sobremesa, nem precisa falar, né? Tiramissu! O melhor do Brasil fácil. 


Finalizamos com belíssimo cognac Remy Martin VSOP, cafezinhos e mignardizes. O almoço aos domingos no Fasano agora segue como uma das melhores experiências gastronômicas e culturais da cidade. Seja pela beleza do espaço, pela gentileza do atendimento e pela comida impecável em todas as etapas. Um clássico. E como todo clássico, necessário e atemporal.


Fasano – R. Vitório Fasano, 88, Jardins, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3896-4000